O Culto de Côtimbó
O Culto de Cotimbó
O Cotimbó preservado pelo Reino Cabra Preta é apresentado por nossa tradição como um caminho espiritual com mais de seis décadas de história, transmitido a partir da obra e dos fundamentos de João Carlos Elias do Caveira.
É dessa raiz que recebemos um dos princípios fundamentais de nossa tradição:
Exu não nasceu para ser escravo. Exu nasceu para ser Rei.
No Cotimbó, Exu não ocupa simplesmente a posição de intermediário ou servidor das vontades humanas. Ele possui reino, autoridade, mistério e soberania próprios. Por essa razão, nosso culto não busca aprisionar Exu à vontade do praticante, e sim reconhecer sua Coroa.
Exu é Rei
Dentro dos fundamentos do Cotimbó, existe uma diferença profunda entre chamar uma entidade para servir e estabelecer uma aliança com uma potência reconhecida como soberana.
Nós escolhemos a segunda estrada. Os Exus do Reino são tratados como Reis, Rainhas, Senhores e Senhoras de seus respectivos domínios espirituais. Cada Coroa representa autoridade, responsabilidade, território espiritual e compromisso com determinada força.
Por isso, a Coroação de Exu ocupa lugar central em nossa visão. Coroar não significa transformar Exu em Rei. Significa reconhecer aquilo que ele já representa dentro do mistério.
A Coroa declara que aquele Exu possui autoridade em seu Reino e que sua presença diante do iniciado não é a de um escravo espiritual, mas a de uma potência com a qual se estabelece compromisso, respeito e reciprocidade.
A Independência de Exu
Um dos fundamentos mais importantes de nosso Cotimbó é a independência espiritual de Exu.
Ao longo da história, diferentes sistemas religiosos e mágicos desenvolveram suas próprias maneiras de compreender, organizar e cultuar as entidades espirituais. O Reino Cabra Preta respeita a existência dessas diferentes tradições, mas segue outro fundamento.
Em nossa casa, não trabalhamos com a ideia de escravização de Exu. Exu não precisa ser acorrentado. Exu não precisa ser humilhado. Exu não precisa perder sua identidade para caber dentro de outra hierarquia espiritual.
Exu possui voz. Possui vontade. Possui domínio.
E possui Coroa.
A relação entre o praticante e Exu deve nascer de aliança, palavra, compromisso e reciprocidade.
Essa independência é uma das colunas que sustentam o Cotimbó.
Os Reis que serão Coroados
O Reino Cabra Preta reconhece que existem Exus cuja manifestação revela verdadeira autoridade de Reino. Esses Exus são reconhecidos e, dentro dos fundamentos da tradição, coroados.
A Coroação estabelece simbolicamente o Reino, confirma a autoridade daquela força e marca também a responsabilidade daquele que passa a caminhar sob determinada Coroa. Porque receber um Rei não significa possuir um Rei. Significa entrar em seu Reino.
A partir desse momento, o iniciado aprende que poder espiritual não existe separado de responsabilidade. Quanto maior a Coroa, maior deve ser o compromisso daquele que se apresenta diante dela.
Uma Tradição de Reino
É por isso que utilizamos a palavra Reino. Não somos apenas uma casa onde Exu é chamado. Somos uma tradição construída sobre a ideia de que Exu possui Reino.
Existem portas.
Existem caminhos.
Existem Coroas.
Existem ancestrais.
Existem fundamentos.
E existe uma linhagem que, segundo nossa tradição, atravessa mais de sessenta anos desde João Carlos Elias do Caveira, chegando às novas gerações que hoje mantêm viva essa corrente.
O Reino Cabra Preta assume a responsabilidade de preservar essa memória e, ao mesmo tempo, permitir que o Cotimbó continue vivo. Porque tradição não é somente aquilo que pertence ao passado, é também aquilo que atravessa o tempo sem perder sua alma. E enquanto houver uma encruzilhada, uma Coroa e alguém disposto a honrar verdadeiramente o mistério, o Reino continuará de pé.
Exu não se ajoelha diante do Reino.
Exu é quem carrega a Coroa.